DE NOITE NO MEIO DA MATA ESCURA

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Essa história aconteceu num domingo, quando voltávamos pra casa eu e meu namorado depois de um dia de trabalho pra ele e de laser pra mim.
Íamos da praia de Calhetas para Gaibú, num lugar chamado Vale da lua. Muito bonito e misterioso. Antes, paramos na casa de uns amigos pra uma visita rápida e depois fomos embora.

Descíamos a ladeira com a bicicleta quando ele lembrou de um atalho que conhecia por dentro da mata. Já eram quase oito da noite. A lua estava nova, portanto, não se via nada a nossa frente, nem mesmo o chão. Eu ainda disse: tem certeza que você quer mesmo pegar esse atalho? Ele falou: Sim amore, é seguro. Vamos?!

Se eu não me sentisse segura com ele, não me sentia com mais ninguém nesse mundo. Acho que ele, nosso amigo Zé e minha tia Lia eram as únicas pessoas na face da terra com quem eu entraria numa mata daquelas à noite. Tava muito escuro mesmo!

Ele desceu a primeira ladeira segurando a bicicleta e eu segurando nele. A estrada cheia de buracos vez por outra fazia com que escorregássemos nossos pés. O namorado não hesitava. Seguia em frente bem devagar e como um índio ia caçando as entradas no meio da mata fechada, as vezes não lembrava se a entrada era mesmo daquele lado e entrava depois saia e voltava para o outro caminho... Eu só faltava morrer quando ele parava e se perguntava pra que lado era mesmo que deveríamos ir.

Caminhamos cerca de quinze minutos mata adentro. Só víamos mato na nossa frente, e quando olhávamos pra cima um céu cheio de nuvens e com poucas estrelas me fazia pensar que a qualquer momento encontraríamos um lago escuro cheio de animais que mordem os pés e as pernas da gente.

Comecei a pensar que alguém maior do que meu namorado (que já era bem grande) ia aparecer pra levar sua bicicleta e nos fazer algum mal. Imaginei uma luta entre ele e cinco caras, eu chutando um deles e correndo pra pedir ajuda.

Quando consegui me desligar desses pensamentos ruins, fiz uma oração pra encher (mais ainda) o saco do meu anjo da guarda e pedi proteção.

A experiência dentro da mata me fez pensar em muitas coisas. Como por exemplo se eu fosse uma fada e morasse dentro de um tronquinho de árvore daqueles, eu já estaria dormindo uma hora daquelas numa caminha bem fofinha e cheirosa. Se eu fosse um morceguinho ou uma coruja estaria por aí sobrevoando em busca de comida; e se eu fosse uma árvore, estaria me vendo passar agora com Emílio (esse era o nome dele) e pensando alguma coisa sobre nós dois, do tipo: “- O que é que esses dois estão fazendo por aqui essa hora? Tomara que não se percam”. Será que as árvores podem ver a verdade dentro das pessoas? Elas são tão sábias...

Também pensei na possibilidade de ser um lago e ficar no escuro, sozinho... no silêncio de minhas águas. Podia ser também uma estrela e ficar de longe vendo as pessoas na terra e de vez em quando ser cadente só pra saber quais seus desejos.
Mas o que mais eu queria ser era uma folha no mês de agosto, pra deixar o vento me levar e voar bem muito num redemoinho de folhas secas.

Enquanto imaginava o que seria se eu fosse outro ser da natureza vi uma claridade muito fraca na minha frente. De repente um mundo se abriu pra nós. Vi um descampado no meio da mata na frente de um morro muito alto.
Meu coração bateu forte e senti um frio na barriga, acho que Emílio sentiu meu susto quando apertei seu braço no desespero. Ele sorriu e disse: “- Pronto amore, chegamos no campinho.”
Abri os olhos e olhei pro lado direito. Aquele lugar era o campo de futebol que ficava bem perto da nossa casa. Era só dobrar a direita que já estaríamos em casa.
Quando encontramos a luz e conseguimos nos ver novamente ele me olhou sorrindo e perguntou: “- Ficou com medo, amore?” Eu respondi : “- Só um pouquinho. “

Flor de Lima
04/10/2007

FOGO E FORRÓ


A menina entrou no salão de vestido branco.
Todo mundo queria dançar com ela, ela ia, mas não queria.
Já tinha par certo.
Faltava só ele chegar pra festa começar.

Toda de branco... parecia até uma noiva.
Finalmente ele apareceu.
Veio de branco também, igualzinho a ela...
Parecia até o noivo.
- Vai ter casório hoje! Gritou a rabeca.

Ele não a viu, conversava na calçada com um povo
Que ela mesmo com dois bons olhos não via,
Não enxergava não conhecia.
Quando ele a viu entrou no salão com uma pareia
Só pra provocar...

A menina lá parada
O moço lá dançando.
Chegou bem pertinho dela se remexendo
E buliu com a menina ciumenta
Ela sorriu e ele ganhou a noite.

Dançou uma, duas, três... a música não acabava?
Ela foi dançar também, só não tão agarradinha.
Ele dançou quatro, cinco...
Ela parou na terceira, não queria mais.
Finalmente a música acabou.


A pareia pegou ele e foi embora, levando o noivo da menina pelo braço.
O moço saiu com um ar de “é ela...”,
Só pra provocar...
Mas a menina nem ligou.
Ele foi, mas voltou na mesma hora.
Olhou pra ela e chamou a amiga pra dançar.
Só pra provocar...

Desconfiada a amiga olhou pra menina, que disse: Vai!
Mesmo dançando com a amiga, buliu tanto com a menina que ela se mexeu.
Ele provocou de novo: - Tua amiga dança direitinho...
E ela respondeu: “- Mas, eu danço melhor que ela.”
E foi aí que tudo começou...

O moço agarrou a menina pela cintura e apertou forte
Segurou bem sua mão e com a noiva rodou o salão.
Ela fechou os olhos e deixou ele levar a dança.
Santo de casa cantava... “Vem morena pros meus braços,
vem morena vem dançar...”
A menina toda derretida, acreditando que era com ela, obedecia.
E a coisa foi esquentando.

Subiu fumaça no salão.
A dança tava quente e o zabumbeiro gritava:
“- Eita, que o forró tá pegando fogo!”
Da dança já escapavam faíscas.

Menina ciumenta, moço faceiro...
Menina danada, moço desvairado.

Vento forte bagunça o mar
Segura pro barco não virar.

Ele apertava a mão dela e encostava o rosto, o corpo, a respiração...
Misturando os suores e despertando desejos.
Os lábios chegavam perto, mas não se beijavam.
A música não parava, nem a dança, nem a vontade.
E a fumaça ia tomando de conta do salão porque o fogo tava aumentando.

Era suor descendo, fogo sumindo
Rosto colado, coração acelerado
Lábios tocados, olhos fechados, bocas se encostaram.
Fumaça, laço de fita e flor encheram e enfeitaram o salão...

A zabumba quando viu virou o tempo.
O triângulo também e de tão quente quase cai da mão do tocador
Que aperreado, falou: - Ai ai ai! Esse forró tá bom demais...
O ganzá todo agitadinho gostando da situação dizia:
- O negócio tá ficando bom agora...

A rabeca virada não parava a música,
Não parava a dança não acabava o beijo.
A menina em si, não via o tempo passar.

O moço faceiro beijava doce feito mel
Melhor que goiabada com creme de leite
Beijo e forró de madrugada sem hora pra acabar.
Coração, não tem hora nem jeito de parar.


A zabumba virada
A rabeca afinada
A fumaça subindo,
O suor descendo
E o beijo acontecendo.

Os dois de branco dançando, parecia mais festa de casamento.
A menina foi parar em outro mundo,
Só voltou depois que a música acabou.
À noite também tava acabando, sem que ela soubesse.
Quando abriram os olhos todo o mundo sorria pra eles.

Os dois arrodeando e esquentando o salão enfumaçado.
O moço então foi embora.
A fumaça foi diminuindo e o salão esfriando.
Mas o coração da menina não.
Ainda tava quente quando o noivo sumiu.

Ela acordou em casa.
Ainda era possível ouvir ao longe o som da rabeca.
Abriu os olhos e uma voz falou: - Vai dormir, menina!
A noite não ainda não acabara e a menina quase sonhando
Foi dormir de novo.

(Quando acordou de manhã, pensou: - É possível transformar a realidade num sonho).


Flor de Lima
20/12/2008