FOGO E FORRÓ


A menina entrou no salão de vestido branco.
Todo mundo queria dançar com ela, ela ia, mas não queria.
Já tinha par certo.
Faltava só ele chegar pra festa começar.

Toda de branco... parecia até uma noiva.
Finalmente ele apareceu.
Veio de branco também, igualzinho a ela...
Parecia até o noivo.
- Vai ter casório hoje! Gritou a rabeca.

Ele não a viu, conversava na calçada com um povo
Que ela mesmo com dois bons olhos não via,
Não enxergava não conhecia.
Quando ele a viu entrou no salão com uma pareia
Só pra provocar...

A menina lá parada
O moço lá dançando.
Chegou bem pertinho dela se remexendo
E buliu com a menina ciumenta
Ela sorriu e ele ganhou a noite.

Dançou uma, duas, três... a música não acabava?
Ela foi dançar também, só não tão agarradinha.
Ele dançou quatro, cinco...
Ela parou na terceira, não queria mais.
Finalmente a música acabou.


A pareia pegou ele e foi embora, levando o noivo da menina pelo braço.
O moço saiu com um ar de “é ela...”,
Só pra provocar...
Mas a menina nem ligou.
Ele foi, mas voltou na mesma hora.
Olhou pra ela e chamou a amiga pra dançar.
Só pra provocar...

Desconfiada a amiga olhou pra menina, que disse: Vai!
Mesmo dançando com a amiga, buliu tanto com a menina que ela se mexeu.
Ele provocou de novo: - Tua amiga dança direitinho...
E ela respondeu: “- Mas, eu danço melhor que ela.”
E foi aí que tudo começou...

O moço agarrou a menina pela cintura e apertou forte
Segurou bem sua mão e com a noiva rodou o salão.
Ela fechou os olhos e deixou ele levar a dança.
Santo de casa cantava... “Vem morena pros meus braços,
vem morena vem dançar...”
A menina toda derretida, acreditando que era com ela, obedecia.
E a coisa foi esquentando.

Subiu fumaça no salão.
A dança tava quente e o zabumbeiro gritava:
“- Eita, que o forró tá pegando fogo!”
Da dança já escapavam faíscas.

Menina ciumenta, moço faceiro...
Menina danada, moço desvairado.

Vento forte bagunça o mar
Segura pro barco não virar.

Ele apertava a mão dela e encostava o rosto, o corpo, a respiração...
Misturando os suores e despertando desejos.
Os lábios chegavam perto, mas não se beijavam.
A música não parava, nem a dança, nem a vontade.
E a fumaça ia tomando de conta do salão porque o fogo tava aumentando.

Era suor descendo, fogo sumindo
Rosto colado, coração acelerado
Lábios tocados, olhos fechados, bocas se encostaram.
Fumaça, laço de fita e flor encheram e enfeitaram o salão...

A zabumba quando viu virou o tempo.
O triângulo também e de tão quente quase cai da mão do tocador
Que aperreado, falou: - Ai ai ai! Esse forró tá bom demais...
O ganzá todo agitadinho gostando da situação dizia:
- O negócio tá ficando bom agora...

A rabeca virada não parava a música,
Não parava a dança não acabava o beijo.
A menina em si, não via o tempo passar.

O moço faceiro beijava doce feito mel
Melhor que goiabada com creme de leite
Beijo e forró de madrugada sem hora pra acabar.
Coração, não tem hora nem jeito de parar.


A zabumba virada
A rabeca afinada
A fumaça subindo,
O suor descendo
E o beijo acontecendo.

Os dois de branco dançando, parecia mais festa de casamento.
A menina foi parar em outro mundo,
Só voltou depois que a música acabou.
À noite também tava acabando, sem que ela soubesse.
Quando abriram os olhos todo o mundo sorria pra eles.

Os dois arrodeando e esquentando o salão enfumaçado.
O moço então foi embora.
A fumaça foi diminuindo e o salão esfriando.
Mas o coração da menina não.
Ainda tava quente quando o noivo sumiu.

Ela acordou em casa.
Ainda era possível ouvir ao longe o som da rabeca.
Abriu os olhos e uma voz falou: - Vai dormir, menina!
A noite não ainda não acabara e a menina quase sonhando
Foi dormir de novo.

(Quando acordou de manhã, pensou: - É possível transformar a realidade num sonho).


Flor de Lima
20/12/2008

Um comentário:

Anônimo disse...

Sou fã!